O ministro Alexandre de Moraes e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, comemoraram juntos a reeleição de Lula em um dos almoços semanais que mantêm em Brasília. O resultado mantém Alcolumbre na disputa pela cadeira do Senado e enterra os pedidos de impeachment que só ele pode levar ao plenário.
BRASÍLIA — O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, passaram um dos almoços semanais que mantêm em Brasília comemorando a reeleição de Lula. Para os dois, o resultado fechou um processo que estava se abrindo contra eles. Alcolumbre mantém o caminho livre para continuar na cadeira do Senado, e a pressão pelo impeachment de Moraes — que gente dentro da própria Corte já tratava como questão de quando, não de se — perdeu o motor político de uma hora para outra.
O ministro que fiscaliza as eleições brasileiras e o senador que guarda na gaveta todos os pedidos de impeachment contra esse ministro sentaram à mesma mesa para comemorar o mesmo vencedor. Ninguém em Brasília chama isso de conflito.
Os dois cargos não têm o mesmo peso, e é exatamente esse o ponto. Pelo regimento, um pedido de afastamento de ministro do Supremo não anda se o presidente do Senado não quiser que ande. Dezenas de pedidos contra Moraes foram protocolados desde que ele passou a determinar prisões, derrubadas de contas e bloqueios de bens contra críticos do governo. Nenhum avançou. Alcolumbre os mantém parados, e a regra não o obriga a submeter isso a voto, a debate nem a explicação pública. O mesmo ministro mandou soltar um condenado por decisão monocrática na semana passada enquanto mantém presos réus do 8 de janeiro, e nada disso chegou perto de virar processo disciplinar, porque o único gabinete capaz de abrir um nunca abriu.
Por que isso importa fora do Brasil
Moraes não é figura secundária na política americana. O Tesouro dos Estados Unidos o designou sob a Lei Magnitsky Global em 2025, por censura e perseguição judicial de adversários políticos, e suas decisões atingem plataformas americanas que operam no Brasil. A permanência dele na Corte, portanto, não é assunto doméstico de Brasília: define quem assina a próxima ordem de remoção contra uma empresa sediada na Califórnia e quem assina o próximo mandado de prisão contra um brasileiro que fala para plateia estrangeira. Para Washington, Lula reeleito e Moraes intocável chegam no mesmo pacote.
A aritmética do Senado explica o alívio naquele almoço. Alcolumbre contabiliza até 48 votos para seguir na presidência. O senador Rogério Marinho (PL-RN), candidato da oposição, afirma ter os mesmos 48. A Casa está dividida ao meio, e quem vencer herda a única chave do arquivo de impeachment — o que transforma uma eleição interna de rotina na votação mais decisiva do país para o ministro que mais prendeu opositores do governo.
A aliança por trás do almoço é mais velha que esta eleição. Em agosto, Moraes recebeu Lula, Alcolumbre e o ministro Cristiano Zanin para jantar na própria residência, reaproximação costurada depois de o Senado rejeitar Jorge Messias, indicado de Lula à Corte. O chefe da bancada mais dura do Judiciário, o chefe do Senado e o chefe do Executivo acertando suas relações em jantar privado é o arranjo que o Brasil passou a chamar de governo normal.
O que está comprovado e o que é relato
Comprovado é o mecanismo: só o presidente do Senado decide se um pedido de impeachment contra ministro chega a ser lido, e sob Alcolumbre nenhum chegou. Relatado — e apoiado na publicação da revista Oeste, não em registro oficial — é a comemoração em si e o jantar privado de agosto. As contas de votos que os dois lados divulgam para a presidência do Senado são afirmações dos próprios lados, não apuração. O Watch Post Daily mantém essa distinção.
Tirada a cordialidade, a estrutura aparece inteira. A autoridade que pode encerrar a carreira de Moraes e o ministro cuja carreira depende dela são aliados pessoais que almoçam juntos toda semana, e os dois acabaram de ganhar. Isso acontece sob um governo cuja vitória de 2022 segue contestada por milhões de brasileiros que denunciam fraude nas urnas eletrônicas, e cujos números de 2026 produziram resultados legislativos que ninguém em Brasília explicou — o mesmo governo que já foi publicamente desmentido por um país vizinho sobre fatos que havia narrado como oficiais. Responsabilização no Brasil deixou de ser algo que as instituições entregam a contragosto. Virou assunto que um círculo pequeno de homens resolve no almoço.
O Watch Post Daily seguirá acompanhando esta história.
Imagem destacada: Sessão Solene de Posse de Fachin e Moraes na cúpula do STF, via Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0.



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