A BBC tem um plano para manter cerca de 100 funcionários transmitindo em FM por pelo menos 72 horas, num estúdio de emergência com combustível, água e comida próprios, caso um apagão nacional ou ataque cibernético derrube a infraestrutura britânica. Londres já pede estoque de três dias.
LONDRES — A BBC montou um plano para continuar falando com a população britânica caso um apagão nacional ou um ataque cibernético de grande porte derrube a infraestrutura do Reino Unido. Segundo reportagem publicada em 7 de novembro pelo correspondente David Sillito, da própria BBC, cerca de 100 funcionários operariam um estúdio de rádio de emergência com energia própria, combustível, água e comida suficientes para manter as transmissões por pelo menos 72 horas, enquanto telefone e internet estiverem fora do ar.
Nenhum governo abastece um estúdio de rádio com três dias de diesel, água e comida para um cenário que acredita que nunca vai acontecer. Londres já deu nome, equipe e estoque de combustível ao dia em que o país inteiro apagar.
O cenário tem nome no planejamento britânico: “Black Sky” (céu negro), um apagão tão extenso e tão longo que derruba junto o abastecimento de água, as bombas de combustível, o comércio, os caixas eletrônicos e as redes de celular. Nessa hipótese, a BBC recorre ao rádio FM, a única tecnologia que ainda funciona em quase todo lugar. As torres de transmissão passam a rodar com geradores a diesel, as transmissões saem nas frequências da Radio 2 e da Radio 4, e a população é orientada a ouvir pelo rádio do carro ou por aparelhos a pilha. As equipes em campo se comunicam por telefone via satélite, com pontos de encontro combinados caso isso também falhe, e o estúdio lê roteiros do governo já escritos sobre racionamento de água, saneamento e alimentação.
Por que isso importa
O plano da BBC não é papelada isolada de contingência. Em 22 de outubro, o governo britânico lançou o “Be Ready” (Esteja Preparado), campanha de três anos que pede a cada família para manter em casa pelo menos três dias de água, comida e itens essenciais, e que cita ataques cibernéticos entre as ameaças aos serviços básicos. Em 3 de novembro, o Centro Nacional de Segurança Cibernética alertou que malware movido a inteligência artificial deve, “muito provavelmente”, aparecer em ataques de ransomware contra a infraestrutura crítica britânica até 2028. O plano sigiloso do governo para apagões, o Programme Yarrow, já foi testado com ministérios e prefeituras, e o operador da rede elétrica recebeu metas de religar 60% da demanda regional em 24 horas e toda a Grã-Bretanha em cinco dias.
Para comparar: em 28 de abril de 2025, Espanha e Portugal ficaram cerca de dez horas no escuro, e telecomunicações, transporte e serviços de emergência caíram ao mesmo tempo. Quando uma das democracias mais bem preparadas do mundo começa a pedir que os cidadãos façam estoque e ensaia uma rádio para o dia em que a internet parar, o alerta não é só para os britânicos.
O que está comprovado e o que não é público
Comprovado: a própria reportagem da BBC descreve o estúdio de emergência, os cerca de 100 funcionários, as 72 horas de autonomia e o recurso ao FM. A campanha Be Ready e a orientação de três dias de suprimentos são política oficial do governo. Não é público: a localização do centro de transmissão de emergência, o conteúdo completo dos roteiros oficiais e as avaliações de ameaça que levaram Londres a tornar esses preparativos visíveis agora. O presidente da Comissão Nacional de Preparação, Lord Harris, sustenta que anos de busca por eficiência eliminaram a redundância que mantinha os serviços de emergência conectados, quando polícia e ambulâncias trocaram o rádio pelas redes móveis.
E o Brasil?
O Brasil já teve a sua amostra. Em 15 de agosto de 2023, sob o regime Lula, uma falha no sistema elétrico nacional derrubou a energia em todos os estados, exceto Roraima, em questão de minutos. O fornecimento voltou em poucas horas, mas nenhum equivalente brasileiro ao “Be Ready” veio depois, e Brasília nunca disse ao cidadão em que rádio sintonizar, nem o que manter em casa, se a rede elétrica e as telecomunicações caírem juntas. O governo que gasta energia vigiando o que o brasileiro diz na internet falou muito pouco sobre o que ele deve fazer quando não houver internet. O padrão de como o regime trata as instituições aparece também na nossa cobertura do processo contra a chapa Lula-Alckmin no TSE e das 316 interações de Vorcaro com Moraes.
O Reino Unido se prepara em público para o dia em que seus sistemas falharem, e pede que a população se prepare junto. É assim que se parece a prestação de contas quando um Estado leva uma ameaça a sério: plano com nome, orçamento com nome e instrução clara ao cidadão. A pergunta que fica para qualquer outra democracia, a começar pelo Brasil, é se seus governantes têm algum plano, ou se estão apenas contando que a luz não vai apagar.
O Watch Post Daily continuará acompanhando este caso. Fontes: reportagem da BBC News por David Sillito (7/11/2026); campanha “Be Ready” do governo britânico (22/10/2026); National Cyber Security Centre (3/11/2026); metas do National Energy System Operator; reportagens do Euro Weekly News e da Open Magazine.
Imagem destacada: torre de transmissão de rádio, foto de webandi no Pixabay, licenciada para uso comercial sem exigência de atribuição.



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