Lula disse a um conselho de minerais críticos que ninguém investe numa economia desordenada e que capital exige seriedade. O recado recai sobre o próprio regime Lula, dias depois de um circuit breaker na bolsa, de previsão de inflação maior e da admissão de que as regras fiscais precisam mudar.
BRASÍLIA — O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse a um conselho do governo, na quinta-feira, que “ninguém vai fazer investimento numa economia desordenada” e que os investidores “querem saber se nós estamos falando sério”. As condições que ele listou, responsabilidade fiscal e segurança jurídica, são as que o próprio regime Lula precisa entregar.
Lula falou numa reunião do Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos. “Para a gente atrair, temos que ter uma economia arrumada”, afirmou. Disse ainda que não quer o Estado como “o senhor supremo” da exploração, da transformação e da industrialização de terras raras e minerais críticos, e defendeu parcerias com outros países. “Se a gente quiser atrair capital, temos que ter seriedade”, completou.
Quem tem de entregar a ordem
O conselho em que Lula falava é ligado diretamente à Presidência e, pela política de minerais críticos que o criou, pode aprovar ou vetar projetos e acompanhar mudanças de controle societário de ativos minerais. Quem diz que não quer o Estado como senhor supremo do setor discursava para o órgão que dá ao Estado exatamente esse papel.
Por que isso importa
O Brasil tem algumas das maiores reservas dos minerais que a indústria americana quer fora da cadeia de suprimentos chinesa, então a entrada ou saída de capital importa para empresas e fundos dos EUA. Veja nossa cobertura anterior sobre os R$ 12,4 bilhões que saíram da bolsa em oito pregões e sobre a sentença que o mercado já precificou para os próximos quatro anos.
O que está nos registros
Os números são públicos. Em 26 de outubro, dia seguinte ao segundo turno, a B3 acionou o circuit breaker, o primeiro desde 2020, segundo o Estadão/Broadcast. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, autorizou o Tesouro a recomprar títulos públicos para acalmar o mercado e disse que o governo vai “mudar a lei ou, se necessário, a Constituição” para buscar o centro da meta fiscal. A mesma reportagem contabilizou ao menos R$ 39,8 bilhões em ajustes necessários no Orçamento de 2027 para cobrir as promessas de campanha de Lula.
O boletim Focus do Banco Central de 3 de novembro projeta agora inflação de 5,22% em 2026, acima do teto de 4,5% da meta. Coloca a Selic no fim do ano em 13,5%, com a taxa atual em 13,75%, e o dólar em R$ 5,34, contra R$ 5,05 um mês antes. A projeção de crescimento caiu pela terceira semana seguida, para 1,76%. O próprio boletim não relaciona essas mudanças ao resultado da eleição. Durigan disse que as medidas fiscais serão anunciadas depois que Lula definir a nova equipe econômica, com a posse marcada para 5 de janeiro, e, como mostramos no início da semana, o Tesouro não aceita discurso como pagamento.
Lula tem razão quando diz que ninguém investe numa economia desordenada. A desordem que ele descreve aparece na previsão de inflação do próprio regime, nas recompras de títulos do próprio regime e na admissão do próprio regime de que as regras fiscais precisam ser reescritas, e um presidente que lista seriedade como condição para o capital descreve o teste em que seu regime está sendo reprovado em público. Os investidores vão olhar os números.
O The Watch Post Daily continuará acompanhando esta história. Fontes: declarações públicas do presidente Lula no Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos em 5/11/2026; ministro da Fazenda Dario Durigan, via Estadão/Broadcast; boletim Focus do Banco Central de 3/11/2026; B3.
Imagem destacada: Imagens de Brasília (52652558481) por Agência Senado, via Wikimedia Commons, CC BY 2.0.



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