Daniel Ortega disse a um comício sandinista que a Nicarágua nunca mais terá eleição, quatro meses antes da votação geral que já estava no calendário para novembro de 2026. Lula o chama de “meu amigo Daniel” desde 2007 e se recusou a condená-lo quando seus rivais foram presos.
MANÁGUA — Daniel Ortega disse a um comício sandinista no domingo, 19 de julho, que a Nicarágua nunca mais terá eleição nacional. “Aqui não voltará a haver eleições”, declarou o ex-guerrilheiro de 80 anos no 47º aniversário da revolução que o levou ao poder pela primeira vez, para que a oposição não possa “tentar pegar o governo por aí”. Ele acrescentou que vai trabalhar com a Assembleia Nacional, controlada pelo seu partido, em leis que criem novas barreiras à participação dos partidos de oposição em qualquer votação futura.
Os nicaraguenses deveriam estar votando este mês. A eleição geral estava no calendário para novembro de 2026. Não há urna, não há data e não há candidato — e o homem que chama Ortega de “meu amigo Daniel” desde 2007 hoje preside a apuração contestada do Brasil.
Como a urna desapareceu
A eleição sumiu em duas etapas. Em janeiro de 2025, o Congresso controlado por Ortega esticou o mandato presidencial de cinco para seis anos, empurrando a eleição de novembro de 2026 para novembro de 2027. Uma reforma constitucional que entrou em vigor em fevereiro de 2025 retirou a independência dos Poderes e elevou a mulher de Ortega, Rosario Murillo, de vice-presidente a copresidente — título que nenhum nicaraguense havia ocupado antes. Em julho, Ortega apagou a data que ainda restava.
Nada nessa sequência foi improviso. A Nicarágua vive crise aberta desde que as revoltas de rua de abril de 2018 foram esmagadas. Antes da eleição de 2021, o governo prendeu ou inabilitou os principais candidatos de oposição, e Ortega assumiu um quarto mandato consecutivo sem adversário na urna. Em fevereiro de 2023, o regime despachou 222 presos políticos para os Estados Unidos e tirou deles a nacionalidade; mais de 300 dissidentes foram desnacionalizados no total, com os bens confiscados.
Juan Sebastián Chamorro, um dos exilados que perderam cidadania e patrimônio, disse que Ortega “tirou mais uma máscara — a que escondia que ele não quer, sob nenhuma circunstância, que as eleições voltem à Nicarágua”. A Comissão Interamericana de Direitos Humanos repudiou tanto a declaração quanto o plano de excluir a oposição por lei.
Por que isso importa aqui fora
A Nicarágua é a versão acabada de um processo que o hemisfério segue vendo pela metade. A urna foi a última coisa a cair, não a primeira. Primeiro vieram os tribunais, depois as prisões, depois os passaportes — e quando o presidente finalmente disse a frase em voz alta, não havia mais ninguém dentro do país com condição de responder. Essa ordem de operações é a parte exportável, e é a parte que as instituições brasileiras vêm testando há três anos.
Os quarenta anos de amizade de Lula
O histórico do presidente brasileiro com Ortega é longo e tem data. Em agosto de 2007, em visita oficial a Manágua, Luiz Inácio Lula da Silva o chamou de “meu amigo Daniel Ortega” e elogiou o trabalho que Ortega havia feito “para consolidar a Nicarágua como país soberano”. Ortega retribuiu a visita em 28 de julho de 2010, recebido em almoço no Palácio do Itamaraty. Em novembro de 2021, perguntado sobre os candidatos de oposição que Ortega havia preso antes da eleição daquele ano, Lula se recusou a condená-lo, dizendo que não podia julgar os motivos das prisões. O PT publicou nota saudando a reeleição de Ortega e apagou depois da reação. No debate do segundo turno de 28 de outubro de 2022, Lula afirmou ter “orgulho de ter participado da comemoração da Revolução Sandinista”. Em março de 2023, quando 55 países assinaram declaração conjunta no Conselho de Direitos Humanos da ONU condenando os abusos da Nicarágua, o Brasil ficou fora do texto e ofereceu diálogo.
O que está comprovado e o que é leitura
Comprovado: a fala, a reforma constitucional, as declarações datadas acima e a ausência brasileira no texto de 2023. A outra metade do registro entra no mesmo parágrafo: o Brasil criticou a desnacionalização em massa de dissidentes nicaraguenses, apresentou depois documento próprio com críticas na ONU e, em agosto de 2024, expulsou a embaixadora da Nicarágua após Ortega expulsar o encarregado de negócios brasileiro, Breno de Souza. Nenhum decreto brasileiro cancela eleição, e ninguém em Brasília disse o que Ortega disse em julho. O que existe no Brasil não é declaração. É padrão.
Esse padrão está no registro deste jornal: um ministro do Supremo brindando a reeleição de Lula com o senador que decide se ele sofre impeachment, uma apuração presidencial que entregou votos ao partido no poder em sete estados onde esse mesmo partido não elegeu um único deputado federal e três estados do Sul onde cidadãos já votam sobre deixar a federação porque não esperam mais que a urna nacional valha. A Nicarágua não aboliu as eleições em um discurso. Aboliu em dezoito anos — o discurso veio por último.
Fontes: Telemundo/EFE, Associated Press, MercoPress, Comissão Interamericana de Direitos Humanos, Gazeta do Povo, O Povo. O The Watch Post Daily continuará acompanhando esta história.
Imagem destacada: Lula e Daniel Ortega em reunião bilateral no Itamaraty, 28 de julho de 2010 por Roosewelt Pinheiro/ABr, via Wikimedia Commons, CC BY 3.0 BR.



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