Presidente do Paraguai renuncia dois dias depois da quebra do banco que o seu governo alimentou

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Presidente do Paraguai renuncia dois dias depois da quebra do banco que o seu governo alimentou

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Santiago Peña renunciou à presidência do Paraguai nesta quinta-feira, dois dias depois de o Banco Central intervir no Ueno Bank, banco digital ligado ao seu governo que guardava cerca de US$ 800 milhões em depósitos públicos, segundo AP e Reuters.

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ASSUNÇÃO — O presidente do Paraguai, Santiago Peña, renunciou nesta quinta-feira, dois dias depois de o Banco Central do país intervir no Ueno Bank, banco digital com laços estreitos com o seu governo, segundo a Associated Press e a Reuters. Peña anunciou a decisão em um vídeo publicado no X, enquanto protestos tomavam a capital pelo terceiro dia e deputados debatiam o seu impeachment. “Tomei a decisão de apresentar a minha renúncia à presidência da República”, disse, citando estabilidade, paz social e instituições democráticas.

A sequência é a notícia. Na segunda-feira, os reguladores disseram que os livros do Ueno mostravam empréstimos mal documentados e despesas contabilizadas como ativos, e, depois de corrigidos, o capital do banco caiu para menos da metade do mínimo legal. Na terça, o Banco Central assumiu o banco, e o aplicativo, os cartões e as agências saíram do ar. Na quinta, Horacio Cartes, presidente do Partido Colorado e antigo padrinho político de Peña, anunciou que o partido apoiaria o impeachment, e o presidente caiu. O vice-presidente, Pedro Alliana, deve completar o mandato, que vai até 2028.

Como um banco virou problema do presidente

O Ueno ganhou a licença bancária em 2023 e cresceu em velocidade incomum. A AP informou que mais de 60% dos adultos do país eram clientes, e o La Nación calculou a base em mais de três milhões de pessoas, cerca de metade da população. O dinheiro público foi atrás. No mês passado o Ueno tinha cerca de US$ 800 milhões em depósitos públicos, um quarto do total, incluindo recursos do fundo estatal de previdência e saúde e das operadoras das hidrelétricas do país. Peña foi acionista da holding do Ueno até março de 2025 e, logo depois de assumir, em agosto de 2023, nomeou Carlos Carvallo, chefe da financeira que deu origem ao banco, para comandar o Banco Central, que fiscaliza o próprio banco. Carvallo renunciou nesta semana, a pedido de Peña.

Os avisos existiam. Em junho, inspetores do Banco Central encontraram um padrão de empréstimos a pessoas ligadas ao banco acima do que a lei permite, segundo o jornal ABC Color, incluindo quase US$ 39 milhões enviados a três empresas relacionadas em um único dia de setembro de 2025. Até o mês passado, Peña defendia o Ueno e a fiscalização do Banco Central e tratava as dúvidas como campanha de difamação. Oito executivos, entre eles o fundador Miguel Vázquez, estão presos, e a promotoria denunciou 27 pessoas. A nossa reportagem anterior sobre a intervenção no Ueno Bank cobriu as primeiras horas da quebra.

Por que importa

O Paraguai é vizinho do Brasil e sócio no Mercosul, e a Reuters descreveu Peña como aliado do presidente Donald Trump. Os investidores tratavam o governo dele como modelo de gestão econômica estável, e ele perdeu o presidente em uma semana por causa de um único banco. É uma lição sobre a velocidade com que a confiança se move na região, a mesma que aparece no dinheiro estrangeiro saindo do Brasil na reeleição do regime Lula, e em um Tesouro que, como mostramos, não aceita discurso como pagamento.

O que está comprovado e o que é alegação

Comprovado: a renúncia de Peña, em vídeo do próprio presidente; a intervenção do Banco Central no Ueno; a saída de Carvallo; as prisões e denúncias feitas pela promotoria; e a participação passada de Peña na holding do Ueno. Alegação: a oposição, que protocolou o pedido de impeachment com 35 deputados, acusa Peña de conflito de interesses, manipulação de regras e desvio de recursos previdenciários. Peña pediu desculpas ao povo, mas não assumiu responsabilidade pela crise. O La Nación informou que uma denúncia criminal contra ele foi encaminhada à unidade anticorrupção da promotoria, e não havia acusação formal contra ele até agora.

O ponto final é sobre instituições. O Paraguai está pior do que todos os países da América do Sul, exceto a Venezuela, no índice de corrupção da Transparência Internacional, segundo a AP, e mesmo assim o Congresso, a promotoria e o partido do próprio presidente se mexeram contra um chefe de governo em dois dias. Brasília precisa responder à mesma pergunta: a mesma engrenagem se voltaria contra o topo do regime Lula se um banco ligado a ele quebrasse com dinheiro de aposentados dentro?

O The Watch Post Daily continuará acompanhando esta história. Fontes: Associated Press, Reuters, La Nación, ABC Color.

Imagem de destaque: Palacio de los Lopez, Asunción, de Stefano Vigorelli, via Wikimedia Commons, CC0.

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